Na hora de financiar um imóvel ou um carro, o banco costuma perguntar: Price ou SAC? A escolha parece técnica, mas pode representar uma diferença de dezenas ou até centenas de milhares de reais ao longo do contrato. Neste guia, comparamos os dois sistemas com dois financiamentos reais, um imóvel e um carro, para você decidir com números na mão.
A diferença em uma frase
Na Tabela Price, as parcelas são iguais do começo ao fim. No SAC (Sistema de Amortização Constante), a parte que abate a dívida é sempre igual, e por isso as parcelas começam mais altas e vão diminuindo. Em ambos os casos, os juros de cada mês são calculados sobre o saldo devedor daquele momento.
Exemplo 1: financiamento de imóvel
Vamos simular R$ 240.000 financiados em 360 meses (30 anos), com juros de 10,5% ao ano, o equivalente a cerca de 0,8355% ao mês. Para simplificar, a simulação não inclui seguros, taxas e correção do saldo pela TR, que existem nos contratos reais.
| Tabela Price | SAC | |
|---|---|---|
| 1ª parcela | R$ 2.110,82 | R$ 2.671,91 |
| Parcela 120 (10 anos) | R$ 2.110,82 | R$ 2.009,06 |
| Parcela 240 (20 anos) | R$ 2.110,82 | R$ 1.340,65 |
| Última parcela | cerca de R$ 2.110 | R$ 671,03 |
| Total de juros | R$ 519.889,91 | R$ 361.943,50 |
| Total pago | R$ 759.889,91 | R$ 601.943,50 |
A diferença de juros é de quase R$ 158 mil a favor do SAC. Por quê? Na Price, a primeira parcela tem R$ 2.005,24 de juros e só R$ 105,58 de amortização. O saldo cai muito devagar: depois de 10 anos pagando, ainda faltam R$ 218.339,47 dos R$ 240 mil originais, e depois de 20 anos, R$ 159.551,11. No SAC, a amortização é de R$ 666,67 todo mês desde o começo, e o saldo diminui em linha reta.
O lado da renda
Muitos bancos limitam a primeira parcela a cerca de 30% da renda familiar. Com essa regra, a Price exigiria uma renda de aproximadamente R$ 7.036, enquanto o SAC exigiria cerca de R$ 8.906. É por isso que algumas famílias só conseguem aprovação na Price: a parcela inicial menor cabe no limite. Note que, no SAC, a parcela fica menor que a da Price a partir do nono ano, por volta da parcela 101.
Exemplo 2: financiamento de carro
Agora, R$ 50.000 em 48 meses, com juros de 1,8% ao mês, uma taxa comum em financiamento de veículos:
| Tabela Price | SAC | |
|---|---|---|
| 1ª parcela | R$ 1.564,47 | R$ 1.941,67 |
| Última parcela | R$ 1.564,47 | R$ 1.060,26 |
| Total de juros | R$ 25.094,29 | R$ 22.050,00 |
A diferença existe, cerca de R$ 3.000, mas é bem menor que no imóvel, porque o prazo é curto. Na prática, a maioria dos financiamentos de veículos é oferecida apenas pela Price.
Quando escolher cada um
Prefira o SAC quando
- o prazo é longo, como no financiamento imobiliário;
- a primeira parcela cabe no orçamento com folga;
- você espera que sua renda se mantenha ou cresça, e quer pagar menos juros no total.
A Price pode fazer sentido quando
- a parcela inicial do SAC não cabe na sua renda ou no limite do banco;
- você prefere previsibilidade, com o mesmo valor todo mês;
- você pretende fazer amortizações extraordinárias com frequência, o que reduz a desvantagem da Price.
A correção do saldo: TR e IPCA
As simulações deste guia usam juros fixos, mas muitos financiamentos imobiliários também corrigem o saldo devedor todo mês. Nos contratos tradicionais do Sistema Financeiro de Habitação, a correção é pela TR, que nos últimos anos tem sido baixa, mas não é zero. Alguns bancos oferecem também linhas corrigidas pelo IPCA, a inflação oficial, com taxa de juros menor.
A taxa mais baixa dessas linhas pode parecer vantajosa, mas o saldo devedor passa a acompanhar a inflação: em anos de inflação alta, ele pode até aumentar nos primeiros anos, mesmo com as parcelas pagas em dia. Por isso, ao comparar propostas, pergunte sempre qual índice corrige o saldo e simule cenários de inflação mais alta, não só o atual.
Seja qual for a correção, o raciocínio entre Price e SAC continua valendo: no SAC a dívida cai mais rápido, e por isso a correção incide sobre um saldo cada vez menor.
Amortizar antes do prazo
Em qualquer sistema, pagar parte da dívida antes do prazo é um dos melhores usos para um dinheiro extra, como o 13º ou a restituição do Imposto de Renda. Ao amortizar, você normalmente pode escolher entre reduzir o valor das parcelas ou reduzir o prazo. Reduzir o prazo costuma gerar mais economia de juros. No financiamento imobiliário, também é possível usar o FGTS para amortizar, seguindo as regras do Sistema Financeiro de Habitação.
Antes de assinar
Compare o Custo Efetivo Total (CET) das propostas, e não só a taxa de juros, porque ele inclui seguros, tarifas e impostos. Peça a planilha de evolução do saldo devedor e verifique como o saldo é corrigido. Faça suas próprias simulações na calculadora de financiamento, mudando prazo, taxa e sistema, e veja como cada escolha afeta o total pago.