A partir de janeiro de 2026, quem ganha até R$ 5 mil por mês deixou de ter Imposto de Renda descontado do salário. A mudança veio com a Lei nº 15.270/2025 e é uma das maiores alterações na tributação do salário dos últimos anos. Mas ela não funciona como um simples aumento da faixa de isenção, e entender o mecanismo ajuda a saber exatamente quanto você ganha com ela.
A tabela não mudou: foi criada uma redução
A tabela progressiva mensal do IR continua com as mesmas faixas: isento até R$ 2.428,80, e alíquotas de 7,5%, 15%, 22,5% e 27,5% a partir daí. O que a lei criou foi um desconto adicional no imposto, calculado depois da tabela, com base no rendimento tributável do mês:
| Rendimento tributável mensal | Redução do imposto |
|---|---|
| Até R$ 5.000,00 | Até R$ 312,89, o suficiente para zerar o imposto |
| De R$ 5.000,01 a R$ 7.350,00 | R$ 978,62 − (0,133145 × rendimento) |
| Acima de R$ 7.350,00 | Sem redução |
Na faixa intermediária, a redução diminui aos poucos conforme o rendimento sobe, até chegar a zero em R$ 7.350. Esse desenho evita um “degrau”: sem ele, quem ganhasse R$ 5.001 pagaria muito mais imposto do que quem ganha R$ 5.000, e um aumento de salário poderia diminuir o líquido.
Um detalhe importante é que a redução usa o rendimento tributável, ou seja, o salário bruto sujeito ao imposto, e não a base de cálculo já reduzida por INSS e dependentes. É por isso que a calculadora pede o salário bruto.
Quanto o imposto cai em cada faixa
A tabela abaixo compara o imposto que seria cobrado só pela tabela progressiva com o imposto final, depois da redução, para salários de empregados CLT sem dependentes. O INSS de 2026 já está descontado, e em cada caso foi usada a dedução mais vantajosa.
| Salário bruto | IR pela tabela | Redução | IR a pagar |
|---|---|---|---|
| R$ 3.500 | R$ 39,76 | R$ 39,76 | R$ 0,00 |
| R$ 4.800 | R$ 267,89 | R$ 267,89 | R$ 0,00 |
| R$ 5.000 | R$ 312,89 | R$ 312,89 | R$ 0,00 |
| R$ 6.000 | R$ 564,85 | R$ 179,75 | R$ 385,10 |
| R$ 6.500 | R$ 683,10 | R$ 113,18 | R$ 569,92 |
| R$ 7.350 | R$ 884,13 | R$ 0,00 | R$ 884,13 |
| R$ 8.000 | R$ 1.037,85 | R$ 0,00 | R$ 1.037,85 |
Quem ganha R$ 5.000 é o maior beneficiado em valor: deixa de pagar R$ 312,89 por mês, mais de R$ 3.700 em um ano, considerando só os salários. Quem ganha R$ 6.000 ainda economiza R$ 179,75 por mês. A partir de R$ 7.350, nada muda.
Como fica o cálculo passo a passo
Veja o caso de um salário de R$ 6.500, sem dependentes:
- INSS de 2026: R$ 711,51.
- Como o INSS é maior que o desconto simplificado de R$ 607,20, usam-se as deduções legais. Base de cálculo: R$ 6.500 − R$ 711,51 = R$ 5.788,49.
- Imposto pela tabela, na faixa de 27,5%: R$ 5.788,49 × 0,275 − R$ 908,73 = R$ 683,10.
- Redução: R$ 978,62 − (0,133145 × R$ 6.500) = R$ 113,18.
- Imposto a pagar: R$ 683,10 − R$ 113,18 = R$ 569,92.
O salário líquido, sem outros descontos, fica em R$ 5.218,57. Você pode repetir essa conta com o seu salário e seus dependentes na calculadora de salário líquido, que mostra cada etapa.
Vale para 13º e férias?
A redução vale para os rendimentos tributáveis sujeitos ao imposto na fonte, o que inclui as férias. O 13º salário tem tributação exclusiva, calculada separadamente do salário de dezembro, e também recebe a redução sobre o seu próprio valor. Na prática, um 13º de até cerca de R$ 4,8 mil fica sem imposto. As calculadoras de férias e de 13º já aplicam essas regras.
Como algumas empresas e sistemas de folha ainda podem interpretar detalhes de forma diferente, especialmente no 13º, vale conferir o holerite e tirar dúvidas com o RH.
E a declaração anual?
A redução mensal é feita na fonte, pelo empregador. A lei também prevê uma redução equivalente no cálculo anual do imposto, que será aplicada na declaração entregue em 2027, referente aos rendimentos de 2026. Quem tem outras fontes de renda, como aluguéis ou trabalho autônomo, pode ter um resultado diferente na declaração, já que a soma dos rendimentos é que conta no ajuste anual.
Para compensar a perda de arrecadação, a mesma lei criou uma tributação mínima para pessoas com rendas muito altas, acima de R$ 600 mil por ano, e passou a tributar parte dos dividendos. Essas regras não afetam quem vive de salário na faixa beneficiada.
Quem tem mais de uma fonte pagadora
Cada empresa calcula o imposto na fonte apenas sobre o que ela mesma paga. Quem tem dois empregos de R$ 4.000, por exemplo, pode não ter IR descontado em nenhum dos dois, porque cada pagamento fica abaixo de R$ 5.000. Mas, na declaração anual, os rendimentos são somados, e o total de R$ 8.000 por mês fica acima da faixa beneficiada. Nesse caso, é provável que haja imposto a pagar no ajuste. Para não ter surpresa, vale reservar parte da renda ao longo do ano.
O que continua igual
- O INSS não mudou com a nova lei. Ele continua sendo descontado normalmente, com as faixas de 2026.
- A dedução por dependente (R$ 189,59) e o desconto simplificado (R$ 607,20) seguem valendo e continuam reduzindo a base para quem ganha acima da faixa isenta.
- A obrigação de declarar segue as regras anuais publicadas pela Receita Federal. Ficar isento na fonte não significa, automaticamente, estar dispensado da declaração.